O litoral sul do Espírito Santo é muito rico em artesanato em
conchas.
D.Carmelina, uma senhora de 60 anos, bem humorada,
resolvida, casada com um juiz, com seus setes filhos, descendente de índio com
inglês. A primeira artesã a transformar as conchas em peças artesanais e
realizar a sua comercialização.
Quando a conheci, na década de 90, passei a admirar o seu
trabalho e me tornei sua amiga. Ela envolveu no artesanato toda a sua família e
outras pessoas da comunidade, através da sua oficina. O artesanato se tornou a
principal fonte de renda e emprego da região, além do turismo e passou a ser
vendido por todo o Brasil.
Numa dessas viagens, embarcamos minha amiga Violeta e eu, D.
Carmelina e a sua família à Praia de Torres no Rio Grande do Sul para
“manguear” (ato de vender artesanato). Para isso levamos sacas e sacas de dúzias
de colares, brincos, pulseiras, tornozeleiras, uma variedade de conchas, caracóis,
búzios, super coloridos, modelos que combinavam com o verão.
A cidade de Torres,
com seus atrativos, suas falésias e rochedos próximo do mar, nos impressionou.
Os turistas, chiquerézimos, não paravam de comprar o nosso artesanato. Numa dessas
“mangueadas”, conhecemos uma apresentadora de um programa de TV de Porto Alegre,
tipo TV Mulher. Nos convidou para uma entrevista e mostrar os
trabalhos. Nossa! Ai o trem pegou! Aqueceram as vendas. Não demorou a apresentadora nos procurou. D.Carmelina – falou a repórter, tem uma empresa
de Porto Alegre querendo comprar o artesanato para vender na Argentina. Querem
conhecer vocês e o material. -Uai, vamos pra lá agora, disse a artesã animadíssima.
Deixamos “Cecinho”, (apelido de seu
marido) e um dos filhos em Torres e fomos para nossa aventura em Porto Alegre. A
empresa enorme ocupava um prédio na Avenida Mauá. A empresaria Nádia Campos da Rocha, nos
recebeu com delicias típicas gauchas, um café colonial repleto de iguarias. Nos impressionou Tche. Bem, pegou um mapa e nos explicou o
trajeto das conchas, quer dizer “caracoles” para chegar até Mar Del Prata na
Argentina. Disse que teríamos que encontrar uma pessoa “contato” para
atravessar a Ponte da Amizade, com os materiais e nos ensinou um código. Viajamos
para Uruguaiana. Chegamos à noitinha e fomos para o Hotel Central, a fim de
esperar o “contato”. Ele, um senhor magro e baixinho, assim “horrorozinho”, chegou
e nos levou para um galpão. Amanha às 4 horas da matina o táxi vem pegar vocês
três para a travessia na Ponte. Levantamos de madrugada e apreensivas com aquela
aventura para o desconhecido e atravessamos de táxi. Sob o forro do piso do
automóvel, estava repleto de “caracoles”. Achamos esquisito, mas aquela senhora
tão distinta, tão empresária...
A ponte surgia na serração como num filme de terror. Parecia
longa... infinita. O Rio Paraguai divide
os países e a fronteira. Do lado brasileiro Uruguaiana e Paso de los Libres,
cidade da Argentina de La Província de Corrientes, localizada na margem
ocidental.
Amanhecia quando chegamos à cidade que ainda dormia. Paramos
num armazém, batemos a porta: uma voz cavernosa- quem é? Nádia Campos da Rocha- Mauá 1500. Um olho,
depois uma cara esquisita, “Cicatriz”, apareceu na fresta da porta pesada do
armazém. Num empurrão entramos de repente naquele lugar estranho, cheio de
caixas. -Deixem a mercadoria aça. Chicas, ao meio dia. Andamos, andamos... Ta
biene, ta biene... repetia o “Cicatriz”.
O jeito era aguardar
ate o horário. Aonde iríamos?! Encostamos num banco na praça uma nas outras.Todo mundo
cansado. Ao meio dia, o “cicatriz” nos chamou, entramos num carro e seguimos
para uma estrada, depois de uma hora viajando por paisagens desconhecidas e cinzentas,
chegamos a uma casa, no meio do nada. No que entramos com a mercadoria, o homem
chamado “cicatriz” nos trancou. Falou em castelhano um monte de palavras que
não entendemos e foi embora. La fora latidos
de cachorros e a tarde caía apressadamente. Os olhos de Violeta estavam
arregalados e assustados, minha amiga ha tantos anos.
Temos que fazer alguma coisa!- falou D.Carmelina- nossinhora,
porque inventei essa viagem? O que será da gente. Eu dava a metade dos
caracoles pra gente se livrar desta enrascada.
-Eu acho que o trem
ta feio, falei. Ocês duas gordinhas, como vão passar pelo vasculante? La no
alto a única janela e opção.
- Só tem um jeito, eu subo nos ombros das duas e pulo pela
janelinha, sou magra e comprida. Tá me dando dor de barriga!- Tem dó, esquece
isso, senão nos também vamos “desarranjar”. Temos que fugir, disse D. Carmelina.
Ele quer a nossa mercadoria e depois pode acabar com a gente. Violeta começou a
chorar- meu filhinho só com um ano, tenho que me salvar! Eu passo até na
janelinha!
- Subi nos ombros das duas. Eu era bem magra, tipo assim de
quando eu estava vindo a pessoa achava que eu já tinha ido? Só aparecia meus
cabelos de permanentes! Com muito custo, pois eu não era atleta, mas sacudida,
alcancei o vasculante e consegui passar para o lado de fora. Caí bem no meio da
cachorrada e fechei os olhos para sentir as dentadas. Ainda bem que só me
lamberam. Eca! Fui para a frente da casa e tirei a trava da porta. Meio com as
pernas bambas, saímos as três muito acabadas capengando pela estrada. As sacas
com os caracoles ficaram a maioria. Levamos o tanto que aguentamos, conosco.
Já havíamos andado um tempão e com medo de dar de cara com o
“Cicatriz” quando veio ao longe na estrada uma carroça, estilo faroeste,
aquelas com quatro rodas e lona em cima. Um senhor velho a dirigia. Parou e nos
deu carona. D. Carmelina sentou-se ao lado da boleia e Violeta e eu nos
misturamos ao feno.
O velho argentino não perdeu tempo. Começou a paquerar D.Carmelina.
-Meu marido nem pode sonhar!
-suspirou!
-Chica muito bonita!-
Ah minhas almas não contem nada pro “Cecinho” (seu marido). Eta viagem que não acaba. Falta muito, perguntava D. Carmelina
aflita e enjoada pelo balagandã da carroça.
Eis que surge Paso de
los Libres. Agradecemos aquele senhor, com a promessa que D. Carmelina ia
pensar na proposta de casamento. Esgotadas fomos procurar um hotel ou pensão.
IH, não temos dinheiro. Vamos trocar a estadia com os colares de caracoles.
Achamos uma pensão
muito suspeita e estranha, mas aceitaram o pagamento em ”cojares”. Jantamos e
fomos dormir. Lá ela madrugada afora, muito barulho, risadas e gemidos. Minha
nossa!
- Vocês tão acordadas? Pergunta D. Carmelina. Violeta- acho que estamos num motel. Não
contem nada sobre isso heim?
-Já está amanhecendo, vamos para a ponte agora de madrugada,
ninguém pode ver a gente... E assim nos três, tremendo de medo, no meio da
neblina, em silêncio, atravessamos.
Chegamos na
rodoviária de Uruguaiana. Aliviadas. –Trocamos mais colares de conchas,
pelo café com pastel e vendemos algumas peças para a passagem até Torres.
No dia seguinte, conseguimos chegar. Sem sacas, só com
nossas bolsas, pois tínhamos trocado tudo para chegar até ali. A família nos
recebeu contente- Nossa venderam tudo? Cadê o dinheiro?
O entusiasmo logo foi embora, com a nossa peleja e dureza.
Pelo menos voltamos sãos e salvos. E depois a praia toda nos espera.
E realmente, vendemos o
estoque de artesanato em conchas que ficou em Torres e voltamos para casa
cheios de histórias e aventuras . D.
Carmelina fez um grande sucesso no Espírito Santo e eu retornei a Minas com
mais um “Causo“ para contar.

Ha,ha ha ,ha adorei imaginar as caras das "senhorinhas'se metendo nesta enrascada....kkkkkkkk obrigada por compartilhar.abraços,
ResponderExcluirMarleide Santana.PE/DF.
Olá!
ResponderExcluirFoi um grande prazer conhecer seu blog.Aproveito meu tempo para navegar e ler textos e poemas feitos por pessoas que gostam de escrever.
Que bom que você é uma delas.
Grande abraço
se cuida
È realmente uma história interessante,triste ao mesmo tempo,pois ainda existem pessoas inocentes no sentido literal da palavra.Ainda bem que o fato nos rendeu esta rica narração.Excelente! Um grande abraço!
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