sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Mais um causo lá do Sul de Minas: Contrabando dos caracoles.


O litoral sul do Espírito Santo é muito rico em artesanato em conchas.
D.Carmelina, uma senhora de 60 anos, bem humorada, resolvida, casada com um juiz, com seus setes filhos, descendente de índio com inglês. A primeira artesã a transformar as conchas em peças artesanais e realizar a sua comercialização.

Quando a conheci, na década de 90, passei a admirar o seu trabalho e me tornei sua amiga. Ela envolveu no artesanato toda a sua família e outras pessoas da comunidade, através da sua oficina. O artesanato se tornou a principal fonte de renda e emprego da região, além do turismo e passou a ser vendido por todo o Brasil.
Numa dessas viagens, embarcamos minha amiga Violeta e eu, D. Carmelina e a sua família à Praia de Torres no Rio Grande do Sul para “manguear” (ato de vender artesanato). Para isso levamos sacas e sacas de dúzias de colares, brincos, pulseiras, tornozeleiras, uma variedade de conchas, caracóis, búzios, super coloridos, modelos que combinavam com o verão.
 A cidade de Torres, com seus atrativos, suas falésias e rochedos próximo do mar, nos impressionou. Os turistas, chiquerézimos, não paravam de comprar o nosso artesanato. Numa dessas “mangueadas”, conhecemos uma apresentadora de um programa de TV de Porto Alegre, tipo TV Mulher.  Nos  convidou para uma entrevista e mostrar os trabalhos. Nossa! Ai o trem pegou! Aqueceram as vendas.  Não demorou a apresentadora nos procurou.  D.Carmelina – falou a repórter, tem uma empresa de Porto Alegre querendo comprar o artesanato para vender na Argentina. Querem conhecer vocês e o material. -Uai, vamos pra lá agora, disse a artesã animadíssima.  Deixamos “Cecinho”, (apelido de seu marido) e um dos filhos em Torres e fomos para nossa aventura em Porto Alegre. A empresa enorme ocupava um prédio na Avenida Mauá.  A empresaria Nádia Campos da Rocha, nos recebeu com delicias típicas gauchas, um café colonial repleto de iguarias.  Nos  impressionou  Tche. Bem, pegou um mapa e nos explicou o trajeto das conchas, quer dizer “caracoles” para chegar até Mar Del Prata na Argentina. Disse que teríamos que encontrar uma pessoa “contato” para atravessar a Ponte da Amizade, com os materiais e nos ensinou um código. Viajamos para Uruguaiana. Chegamos à noitinha e fomos para o Hotel Central, a fim de esperar o “contato”. Ele, um senhor magro e baixinho, assim “horrorozinho”, chegou e nos levou para um galpão. Amanha às 4 horas da matina o táxi vem pegar vocês três para a travessia na Ponte. Levantamos de madrugada e apreensivas com aquela aventura para o desconhecido e atravessamos de táxi. Sob o forro do piso do automóvel, estava repleto de “caracoles”. Achamos esquisito, mas aquela senhora tão distinta, tão empresária...
A ponte surgia na serração como num filme de terror. Parecia longa...  infinita. O Rio Paraguai divide os países e a fronteira. Do lado brasileiro Uruguaiana e Paso de los Libres, cidade da Argentina de La Província de Corrientes, localizada na margem ocidental.
Amanhecia quando chegamos à cidade que ainda dormia. Paramos num armazém, batemos a porta: uma voz cavernosa- quem é?  Nádia Campos da Rocha- Mauá 1500. Um olho, depois uma cara esquisita, “Cicatriz”, apareceu na fresta da porta pesada do armazém. Num empurrão entramos de repente naquele lugar estranho, cheio de caixas. -Deixem a mercadoria aça. Chicas, ao meio dia. Andamos, andamos... Ta biene, ta biene... repetia  o “Cicatriz”.
 O jeito era aguardar ate o horário.  Aonde iríamos?!  Encostamos  num banco na praça uma nas outras.Todo mundo cansado. Ao meio dia, o “cicatriz” nos chamou, entramos num carro e seguimos para uma estrada, depois de uma hora viajando por paisagens desconhecidas e cinzentas, chegamos a uma casa, no meio do nada. No que entramos com a mercadoria, o homem chamado “cicatriz” nos trancou. Falou em castelhano um monte de palavras que não entendemos e foi embora.  La fora latidos de cachorros e a tarde caía apressadamente. Os olhos de Violeta estavam arregalados e assustados, minha amiga ha tantos anos.
Temos que fazer alguma coisa!- falou D.Carmelina- nossinhora, porque inventei essa viagem? O que será da gente. Eu dava a metade dos caracoles pra gente se livrar desta enrascada.
 -Eu acho que o trem ta feio, falei. Ocês duas gordinhas, como vão passar pelo vasculante? La no alto a única janela e opção.
- Só tem um jeito, eu subo nos ombros das duas e pulo pela janelinha, sou magra e comprida. Tá me dando dor de barriga!- Tem dó, esquece isso, senão nos também vamos “desarranjar”. Temos que fugir, disse D. Carmelina. Ele quer a nossa mercadoria e depois pode acabar com a gente. Violeta começou a chorar- meu filhinho só com um ano, tenho que me salvar! Eu passo até na janelinha!
- Subi nos ombros das duas. Eu era bem magra, tipo assim de quando eu estava vindo a pessoa achava que eu já tinha ido? Só aparecia meus cabelos de permanentes! Com muito custo, pois eu não era atleta, mas sacudida, alcancei o vasculante e consegui passar para o lado de fora. Caí bem no meio da cachorrada e fechei os olhos para sentir as dentadas. Ainda bem que só me lamberam. Eca! Fui para a frente da casa e tirei a trava da porta. Meio com as pernas bambas, saímos as três muito acabadas capengando pela estrada. As sacas com os caracoles ficaram a maioria. Levamos o tanto que aguentamos, conosco.
Já havíamos andado um tempão e com medo de dar de cara com o “Cicatriz” quando veio ao longe na estrada uma carroça, estilo faroeste, aquelas com quatro rodas e lona em cima. Um senhor velho a dirigia. Parou e nos deu carona. D. Carmelina sentou-se ao lado da boleia e Violeta e eu nos misturamos ao feno.
O velho argentino não perdeu tempo. Começou a paquerar D.Carmelina.
-Meu marido nem pode sonhar!  -suspirou!
 -Chica muito bonita!- Ah minhas almas não contem nada pro “Cecinho” (seu marido). Eta viagem que  não acaba. Falta muito, perguntava D. Carmelina aflita e enjoada pelo balagandã da carroça.
 Eis que surge Paso de los Libres. Agradecemos aquele senhor, com a promessa que D. Carmelina ia pensar na proposta de casamento. Esgotadas fomos procurar um hotel ou pensão. IH, não temos dinheiro. Vamos trocar a estadia com os colares de caracoles.
 Achamos uma pensão muito suspeita e estranha, mas aceitaram o pagamento em ”cojares”. Jantamos e fomos dormir. Lá ela madrugada afora, muito barulho, risadas e gemidos. Minha nossa!
- Vocês tão acordadas? Pergunta D. Carmelina.  Violeta- acho que estamos num motel. Não contem nada sobre isso heim?
-Já está amanhecendo, vamos para a ponte agora de madrugada, ninguém pode ver a gente... E assim nos três, tremendo de medo, no meio da neblina, em silêncio, atravessamos.
Chegamos na  rodoviária de Uruguaiana. Aliviadas. –Trocamos mais colares de conchas, pelo café com pastel e vendemos algumas peças para a passagem até Torres.
No dia seguinte, conseguimos chegar. Sem sacas, só com nossas bolsas, pois tínhamos trocado tudo para chegar até ali. A família nos recebeu contente- Nossa venderam tudo? Cadê o dinheiro?
O entusiasmo logo foi embora, com a nossa peleja e dureza. Pelo menos voltamos sãos e salvos. E depois a praia toda nos espera.
E realmente, vendemos o estoque de artesanato em conchas que ficou em Torres e voltamos para casa cheios de histórias e aventuras .  D. Carmelina fez um grande sucesso no Espírito Santo e eu retornei a Minas com mais um “Causo“ para contar.
 

3 comentários:

  1. Ha,ha ha ,ha adorei imaginar as caras das "senhorinhas'se metendo nesta enrascada....kkkkkkkk obrigada por compartilhar.abraços,
    Marleide Santana.PE/DF.

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  2. Olá!
    Foi um grande prazer conhecer seu blog.Aproveito meu tempo para navegar e ler textos e poemas feitos por pessoas que gostam de escrever.
    Que bom que você é uma delas.
    Grande abraço
    se cuida

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  3. È realmente uma história interessante,triste ao mesmo tempo,pois ainda existem pessoas inocentes no sentido literal da palavra.Ainda bem que o fato nos rendeu esta rica narração.Excelente! Um grande abraço!

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